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Cinema Especial - Um olhar do paraíso


Em 2002, um livro surgiu e se tornou um clássico quase instantâneo de nossos tempos, ressoando profundamente entre leitores e críticos mundo afora. Uma Vida Interrompida – Memórias de um Anjo Assassinado, de Alice Sebold, traz uma visão ímpar e muito pessoal da noção de pós-vida. É um conto sobre morte repleto de luz, beleza e esperança. Entre os milhares de leitores imediatamente cativados pela história de Susie Salmon e a busca de sua família por justiça, estava um dos diretores mais criativos da atualidade: Peter Jackson (King Kong), vencedor dos Oscar® de Melhor Diretor, Melhor Filme e Melhor Roteiro por O SENHOR DOS ANÉIS: O RETORNO DO REI. Quando Jackson ainda estava na pós-produção de O SENHOR DOS ANÉIS: AS DUAS TORRES, leu pela primeira vez o livro de Sebold, dado a ele pelas roteiristas Fran Walsh e Philippa Boyens. “Achei a trama tremendamente forte e evocativa. Aparentemente, ela aborda o maior medo de todos os pais – perder um filho. Mas, por fim, torna-se uma história sobre o poder redentor do amor, e é por isso que acho que tantas pessoas gostam dela”, opina o diretor. Com os direitos de adaptação do livro assegurados, o roteiro de Jackson, Fran e Philippa foi levado à DreamWorks, e Steven Spielberg (Transformers: A vingança dos derrotados; Controle absoluto; Munique; Transformers), vencedor dos Oscar® de Melhor Diretor por O RESGATE DO SOLDADO RYAN e Melhor Diretor e Melhor Filme por A LISTA DE SCHINDLER, uniu-se ao projeto como produtor executivo.

Apesar de UM OLHAR DO PARAÍSO ser repleto de elementos mágicos e surreais, Peter Jackson diz que, no fundo, é a história de uma família que luta para encontrar a forma de amar uns aos outros diante da perda e de um mundo completamente imprevisível. Ele sempre viu os Salmon como a espinha dorsal do enredo e, com a equipe de produção, correu o mundo para encontrar um elenco que desse vida a todos os integrantes da família, com suas fraquezas, necessidades e esperanças. Para a personagem central, Jackson buscava alguém que pudesse não só incorporar a exuberância e inocência de Susie, mas que tivesse também a coragem e habilidade de expor as emoções da menina. Em uma enxurrada de fitas, o teste de Saoirse Ronan (Desejo e reparação) chegou rapidamente ao topo. A produtora Carolynne Cunningham diz: “Era uma fita caseira feita pelo pai dela, também ator, e trazia algo de muito especial. Ele fez uma cena difícil com Saoirse, e no final havia um belo toque do pai simplesmente filmando a filha brincando inocentemente no jardim com seu cachorro. Aquilo tinha alma.” A atriz revela: “O que adorei em interpretar Susie foi que ela era uma adolescente comum, com sonhos e esperanças para o futuro, cheia de vida e amor. E, apesar de ser tirada de sua família, seus sonhos permanecem tão vivos quanto eram, mesmo sendo assombrada pelo pesadelo de seu assassinato.”
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Depois da morte de Susie, seu pai, Jack, vivido por Mark Wahlberg (Fim dos tempos; Max Payne), decide levar, a qualquer custo, o assassino de Susie à Justiça. Algumas das cenas mais duras de Wahlberg foram aquelas em que Jack sente que a filha morta está com ele em espírito. O ator precisou encontrar uma forma de fazer as cenas como se Susie fosse uma presença física na sala. “Eu imaginava os olhos azuis de Saoirse, e muitas vezes ela estava narrando em off, e isso me levava às lágrimas”. A culpa e o remorso do pai o levam a se envolver ativamente na solução do caso, mas a reação da esposa dele, Abigail, é inteiramente diferente. Repleta de dúvidas sobre sua capacidade em ser mãe e esposa, ela se desliga emocionalmente e se afasta da família. Quem a interpreta é a vencedora do Oscar® de Atriz Coadjuvante por O jardineiro fiel Rachel Weisz (Um beijo roubado), que opina: “O que gosto em Abigail é que ela não é uma heroína. É alguém muito humana, falível e bastante imperfeita. E ela está tentando desvendar a sua vida, apesar de tudo.” Os Salmon tem uma segunda matriarca, igualmente importante para a dinâmica da família: a avó Lynn é retratada pela vencedora do Oscar® de Melhor Atriz por Os últimos passos de um homem Susan Sarandon (Speed Racer; Encantada). “O que adoro na Lynn é que ela tem que se transformar completamente”, diz a atriz. “Precisa passar aspirador, faxinar e lavar roupa. E faz isso terrivelmente. Ao mesmo tempo, ela consegue, literalmente, abrir as cortinas e deixar a luz entrar, dizendo: ‘OK, já basta. Está na hora de viver’”. A força dos Salmon também fica evidente em Lindsey, irmã mais nova de Susie, que vira uma jovem mulher ao longo da história. Sua intérprete, Rose McIver (O piano), diz: “Lindsey é uma menina voluntariosa e, quando a família começa a desmoronar, ela entende que, se ninguém mais os unirá, ela terá que fazer esse papel”.
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Levar UM OLHAR DO PARAÍSO de forma apropriada às telas também dependeria de encontrar um ator brilhante para viver George Harvey, assassino de Susie. A escolha do diretor foi o veterano Stanley Tucci (Julie & Julia; O corajoso ratinho Despereaux; Space Chimps - Micos no espaço; O diabo veste Prada), que trabalhou com o perito criminal e consultor de ciências comportamentais John Douglas para mergulhar na psicologia dos serial killers. Tucci leu transcrições arrepiantes e assistiu a confissões confidenciais. “Foi difícil”, ele admite. “Você faz a pesquisa toda, mas tenta se afastar daquilo no fim do dia.” O sr. Harvey se esquiva da polícia mesmo com o experiente detetive Len Fenerman, vivido por Michael Imperioli (O espanta tubarões), procurando obstinadamente o assassino de Susie. O ator revela que uma das coisas que mais o chamou a atenção sobre o personagem foi que, ao longo dos anos, ele se torna parte da família Salmon. “Fenerman realmente passa a conhecê-los, e se tornam muito próximos. Acho que ele quer ser um pilar de força para a família”, ele diz. Completando o elenco, Nikki SooHoo (Virada radical) vive Holly, a companhia inesperada de Susie no mundo entre a Terra e o Céu; Reece Ritchie (10,000 A.C.) é Ray Singh, o primeiro amor de Susie; e Carolyn Dando interpreta Ruth, a excêntrica colega de turma de Susie que tem uma ligação sobrenatural com ela depois da morte.
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Desde o início, Peter Jackson queria traçar um limite visual entre o cotidiano da família Salmon e a experiência mágica de Susie no mundo entre a Terra e o Céu. Para isso, contou com o trabalho do diretor de fotografia Andrew Lesnie (Eu sou a lenda; King Kong), vencedor do Oscar® por O SENHOR DOS ANÉIS: A SOCIEDADE DO ANEL e O SENHOR DOS ANÉIS: O RETORNO DO REI. “Sempre gostamos de filmar com duas câmeras – uma para ensaiar e planejar e outra que eu chamo de câmera ‘da sorte’, que pode captar um detalhe diferente para acrescentar à tomada mestre. E costumamos manter uma Steadicam a postos”, explica Jackson. Além disso, o diretor e Lesnie filmaram algumas vezes Stanley Tucci com uma câmera miniatura do tamanho de uma caixa de fósforos, para captar o foco limitado do mundo do sr. Harvey. Uma das cenas mais importantes do filme é a da morte de Susie. “Queria que a sequência fosse assustadora, mas também banal, porque esse cara está tentando atrair Susie a céu aberto”, diz Jackson. “Em princípio, vemos crianças brincando no campo de futebol e pessoas preparando o jantar em suas casas. E aí, em uma cena muito íntima e intensa no quarto subterrâneo, Susie percebe que cometeu um terrível erro. A violência que se segue é apenas implícita, o que era o nosso objetivo.”

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Com tantos tons diferentes – de morte misteriosa a drama familiar e meditação sobre o pós-vida – tecidos em um único trabalho, Jackson também criou uma nova abordagem na montagem de UM OLHAR DO PARAÍSO, pedindo ao editor Jabez Olssen para ficar no set ao longo de toda a produção. Através de avanços tecnológicos, Olssen pôde começar a editar as cenas nas ruas da Pensilvânia e nas florestas da Nova Zelândia, fornecendo a Jackson novas ideias enquanto ele trabalhava. “Frequentemente, durante a espera para filmar uma nova cena, Jabez estava ao meu lado com um laptop e nós editávamos cenas gravadas um ou dois dias antes. Isso nos manteve no ritmo e, quando acabamos de filmar, já tínhamos um pedaço razoável do filme montado.”

Na hora de criar o domínio ilimitado do mundo entre a Terra e o Céu de Susie, Jackson optou por usar metáforas visuais que refletissem as esperanças e alegrias da menina, além de seus temores mais íntimos. “O mundo entre a Terra e o Céu é impulsionado pelas emoções de Susie”, explica o diretor. “Ele se altera dependendo se ela está feliz ou triste, é um reflexo do humor de Susie e da cultura que a cercava quando estava viva. Há momentos suaves e outros muito sombrios.” Sendo surreal e mágico, este mundo também é povoado por uma série de itens que marcaram a vida da menina na Terra e que a prendem no limbo, incluindo o gazebo do shopping onde ela teria seu primeiro encontro romântico, os barcos em garrafas que costumava montar com o pai e o milharal onde perdeu a vida. Jackson e Lesnie filmaram as sequências do mundo entre a Terra e o Céu na Nova Zelândia. A Ilha Sul foi praticamente toda percorrida para encontrar o cenário mais imponente, sereno e idílico. A maior parte da filmagem se passou na vila turística de esqui de Queenstown, repleta de suntuosas florestas, um lago cristalino na montanha e um ambiente alpino.
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Assim que Jackson assegurou os direitos de adaptar Uma Vida Interrompida – Memórias de um Anjo Assassinado, sentiu que precisava visitar a Pensilvânia, estado natal da autora. Depois de conhecer as comunidades de Chester County, a 40 quilômetros da Filadélfia, com sua arquitetura e paisagem características, ele decidiu fazer o filme no lugar que inspirou a história. Com a ajuda de mapas detalhados, a coordenadora de locações Patricia Taggart (Marley & eu) percorreu mais de 100 bairros até descobrir, com a desenhista de produção Naomi Shohan, Malvern, bairro pequeno vitoriano com uma população em torno de 3.200 pessoas. Lá, a produção encontrou a casa ideal para os Salmon. “Nosso bairro se localizava em torno de um pequena ladeira, perfeita para a casa da família. Era muito importante ter um local de onde boa parte da vizinhança pudesse ser vista, e foi isso que encontramos”, observa Shohan. “A construção era até mesmo da cor certa. Aí, em uma coincidência ainda mais sobrenatural, a apenas algumas casas dos Salmon e com vista para a porta da frente da família, encontramos uma residência idêntica em verde, justamente como a do sr. Harvey é descrita no livro.” Sobre o trabalho feito na casa do sr. Harvey, a desenhista de produção explica: “O visual passa a ideia de que ele estudou revistas femininas para descobrir como é a ‘normalidade’. E as cores são reflexo de sua personalidade fechada, psicopata, com uma paleta muito mais tenebrosa e triste de tons verdes.” Outro detalhe vital para Shohan era criar as casas de boneca que o sr. Harvey constrói tão meticulosamente. “Há uma arrepiante relação entre as casas, imagens de completa perfeição, e sua moradia, que é estéril, funcional e sem personalidade”, explica.
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O trabalho da figurinista Nancy Steiner (Pequena Miss Sunshine) e do supervisor de maquiagem Peter King (A bússola de ouro) acrescentou mais camadas à realidade dos Salmon dos anos 70. “Fizemos muitas coisas sutis com a aparência do elenco, tentando mostrar às pessoas que o tempo passou para eles, enquanto Susie continua presa ali”, diz King. Talvez o maior desafio de Steiner e King tenha sido a grande transformação de Stanley Tucci no sr. Harvey. “Optamos por não mostrar o lado doentio do sr. Harvey em seu guarda-roupa, e sim o lado enfadonho dele”, diz Steiner. “O sr. Harvey quer ser visto como um cara comum. Não quer se destacar. A vida dele é rotina e planejamento preciso. Assim, ele usa versões práticas e monótonas das mesmas roupas o tempo todo.” Enquanto isso, King deixou o rosto e corpo de Tucci irreconhecíveis, fornecendo a ele lentes de contato azuis e implantes de dentes falsos que alteraram sua estrutura facial. O ator precisou até mesmo clarear o pelo do corpo para igualá-lo à peruca feita à mão para seu personagem. O figurino pós-vida de Susie e o de sua amiga Holly ficaram a cargo da estilista neozelandesa Kate Hawley, que criou um visual inspirado por sonhos e influenciado por designs da Carnaby Street de Londres dos anos 70 a fotos da Vogue. “As roupas refletem a fantasia das meninas de como elas seriam se tivessem tido a chance de crescer. É a ideia delas de como seria a fase adulta”, resume Hawley.
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Segundo Peter Jackson, o aspecto sonoro de UM OLHAR DO PARAÍSO é tão importante quanto o visual. “Tentamos usar sons que evocam emoções e reações psicológicas”, diz o diretor. A vigorosa atmosfera sonora do filme é complementada por uma trilha sonora de Brian Eno. “Queríamos que a música focasse nos anos 70, mas que não fosse repleta de sucessos pop”, explica Jackson. “Começamos ouvindo as músicas de Eno gravadas naquela época e então perguntamos a ele se podia licenciá-las. Quando começamos a conversar, ele disse: ‘Acho que tenho algo bem melhor para isso’. Então, 90% da trilha acabou sendo de gravações originais de Eno.” Para Jackson, nenhum elemento do filme sobressai, é a ação recíproca entre som, visão e atuação que ele espera que dê vida intensamente à história de Susie Salmon. “Sempre gosto de pensar que fazemos o nosso trabalho artesanalmente”, conclui o diretor. “Seguimos um caminho que passa por inspiração, roteiro e edição e tentamos manter tudo muito orgânico, fluindo naturalmente, sempre aberto a experiências. Vamos a fundo nas nossas histórias, esculpimos cada elemento e colocamos, principalmente, muito carinho e amor em tudo.”

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