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Entrevista com a diretora Tizuka Yamasaki


Tizuka Yamasaki já dirigiu os elogiados Gaijin, Caminhos da Liberdade (1980), seguido de Gaijin, Ama-me Como Sou (2005) além de filmes infantis como Lua de Cristal (1990) e o recente Xuxa em o mistério da Feiurinha (2009). Agora ela retorna aos cinemas com Aparecida - o Milagre. Leia a seguir uma entrevista com a cineasta:

Como foi seu envolvimento com Aparecida - o Milagre?

Da forma mais inusitada. Encontrei Gláucia num vôo Brasília–Rio, nos falamos rapidamente, ela me disse que estava preparando um filme sobre Aparecida, eu falei que teria ótimas histórias para contar sobre o assunto e embarcamos. Sentamos separadas e ao desembarcarmos, ela perguntou se eu não queria conversar sobre o filme – sem saber das minhas histórias. Nos encontramos, ela falou do projeto e dos prazos, mas eu estava finalizando Xuxa em o Mistério da Feiurinha e também envolvida com a produção de Amazônia Caruana (uma entidade de pajelança cabocla). Gláucia precisava alguém full time e não foi possível fechar nada naquele encontro. Mas a idéia do filme não saiu da minha cabeça. Passou um tempo e eu fiz uma coisa inédita na minha vida: telefonei para Gláucia, perguntei se ela já tinha fechado com algum diretor, ela disse ‘ainda não’ e fui taxativa: “Eu sou a pessoa certa para fazer esse filme. Você não vai encontrar nenhum diretor com a visão de Nossa Senhora Aparecida que eu tenho”. E assegurei: “Esse filme é meu”. Gláucia concordou.

Aparecida o milagre

E de onde veio a convicção de que o filme Aparecida - o Milagre era seu?

De algumas histórias que eu queria ter contado para a Gláucia quando nos encontramos no avião e que sinalizavam que eu deveria fazer o filme. A primeira aconteceu quando eu preparava Gaijin II, há 12 anos. Na época, minha avó, então com 96 anos, sofria imensamente por questões vividas com os pais. Eu estava em Atibaia, próximo a Aparecida, e por acaso soube de uma senhora, Dona Márcia, filha de japoneses, que trabalhava com questões sobre antepassados e era devota de Nossa Senhora Aparecida. Meio desconfiada, levei minha avó até Dona Márcia, que a ouviu e rezou uma missa para Nossa Senhora Aparecida. Eu não sabia se acreditava ou não naquele ritual, mas o resultado é que este encontro acabou com o sofrimento da minha avó. Houve um segundo acontecimento: anos depois, em um posto de gasolina perto de Aparecida - lembro até hoje o nome do posto –, Arco Íris, senti algo mexer a minha cabeça na direção de uma imagem da Santa. Achei estranho, mas comprei e pedi para minha filha levar para Dona Márcia, que benzeu a imagem e a devolveu com um recado: “Diga a sua mãe que essa imagem é dela”. Quando Gláucia me falou do projeto, vi esses fatos como sinais de que o filme era meu.

Aparecida o milagre

Depois que Gláucia concordou com a sua ‘decisão’, como você se aproximou do tema que fala de um homem conflitado, de uma família, de um milagre, da conversão, e sobretudo da fé como elemento transformador?

Um desafio em vários sentidos. Eu nunca tinha feito um filme sobre religião, e embora estivesse envolvida com Amazônia Caruana, a abordagem é diferente e não tem milagre. Quando você dirige um filme, a primeira coisa é acreditar no que está fazendo, sobretudo quando o tema é a fé religiosa. Não tenho religião, mas depois de uma certa idade você começa a cultivar um lado espiritual – as coisas materiais não satisfazem mais, e exercito essa busca do meu jeito. O tema principal de Aparecida - o Milagre é justamente a questão da fé, da conversão. Esse era o maior desafio. Sempre gostei de fazer filmes sobre temas que não abordei – e muita coisa é descoberta durante a realização. Nesse processo, eu me perguntei inúmeras vezes sobre as causas de fenômenos como o de Nossa Senhora Aparecida, ou do Círio de Nazaré. Por que tanta gente compactua profundamente desta fé? Este mistério me interessa, e o filme foi uma forma não de decifrar o mistério, mas de chegar mais perto.


Aparecida o milagre

Fale sobre a escolha do elenco, que conta com os experientes Murilo Rosa, Maria Fernanda Cândido, Leona Cavalli, veteranos como Bete Mendes, e estreantes como Jonatas Faro, no papel do jovem Lucas e Rodrigo Veronese, como o pai do menino?

Vários caminhos levaram a essas escolhas em conjunto com a Gláucia, alguns bem surpreendentes. Gláucia e Paulo Thiago tinham trabalhado com Murilo Rosa em Orquestra dos Meninos, e além de ótimo ator ele é um devoto fervoroso de Nossa Senhora Aparecida. Se uma atriz menor interpretasse Beatriz, a personagem afundaria. Por isso optamos por chamar Maria Fernanda que aceitou imediatamente e depois me confidenciou: “Minha avó era devota de Aparecida. Como eu iria ficar se não aceitasse participar do filme?” Janaina Prado, que interpreta Julia jovem (avó de Lucas) tinha acabado de fazer uma peça sobre o assunto. Jonatas Faro, que estréia no cinema no papel de Lucas, é filho de pastor evangélico. Durante as filmagens, ele se machucou e foi visitado pela avó que já tinha vivido em Aparecida, onde não pisava há 63 anos. Os dois foram procurar a casa onde ela tinha vivido. Após andar por algumas ruas, ela apontou para uma casa rosa e disse: “Foi ali”. Era simplesmente a casa onde vivia a personagem de Bete Mendes, ou seja, a avó de Jonatas/Lucas no filme. Eu via todas essas coisas como sinais de que estávamos no caminho certo.


Aparecida o milagre

Como foi a descoberta do menino Vinicius Franco, que interpreta Marcos quando menino?

Essa história também foi incrível. Selecionado entre dezenas de menino, e preparado por Valeria Braga, o menino estava ótimo, até que empacou na cena em que deveria agredir a Santa após a morte do pai. E não havia jeito de fazer a cena, até que ele explicou: como ofender a Santa se ele tinha justamente feito uma promessa para ela para ganhar o papel? Murilo e Rodrigo Veronese foram ótimos e conversaram muito com Vinicius até convencê-lo de que o protesto era do personagem e não dele. Vinicius então acendeu uma vela para a Santa e conseguiu fazer a cena divinamente. O elenco contou com dezenas de figurantes da região de São José dos Campos e de Aparecida, todos devotos de Nossa Senhora Aparecida e que também contribuíram muito com suas experiências e relatos.


Aparecida o milagre

E como você procurou construir o personagem de Marcos, que passa por uma grande transformação?

No começo do filme, já na fase adulta, Marcos não tem espaço interior para amar e ser amado. Enquanto ele não resolvesse isso, não seria feliz. Ele se casou com Sonia, seu amor da infância, mas não conseguiu viver em paz. Ele se relaciona com duas mulheres modernas – Sonia e a assessora Beatriz, ambas com a vida profissional bem resolvida. O filme apresenta uma família moderna, com problemas contemporâneos, não é uma história parada no tempo. Lucas é um jovem saindo de uma bad trip, que encontrou na arte uma forma de libertação que o pai não aceita. Apesar das dificuldades do papel, Murilo se entregou totalmente, aliás, como todo o elenco e a equipe. Tudo transcorreu em grande harmonia.


Aparecida o milagre

Gláucia e Paulo dizem que você insistiu muito na aparição real da Nossa Senhora Aparecida.

Esta questão surgiu antes das filmagens. Desde o início eu defendi a idéia de que após a história do milagre deveria mostrar a própria Santa ao vivo para não frustrar os espectadores. Considero a cena do encontro de Marcos com a Santa, quando ela o envolve com seu manto e ele se entrega, muito emocionante e bem resolvida e contou com a proteção da própria Santa, pois apesar de nuvens negras anunciarem um grande temporal, a chuva parou justamente na hora da filmagem e depois desabou. Eu brinquei com a equipe: “A Santa segura a filmagem, mas não dá para segurar também a retirada dos equipamentos” (risos). Filmar na Basílica foi bem complicado – havia sempre muitos eventos, som de alto falantes, muita movimentação, mas utilizamos os horários livres e deu tudo certo.

Aparecida o milagre

A que você atribui a força de Nossa Senhora Aparecida a ponto de ser A Padroeira do Brasil?

Diferente de tantas Nossas Senhoras, ela nunca apareceu para ninguém. Ela é na verdade N. Sra. da Conceição, uma entre inúmeras outras que apareceram em épocas e locais diferentes. Um diferencial importante no caso de Nossa Senhora Aparecida é que ela nunca apareceu: uma imagem foi encontrada no fundo do rio, suja, com lodo, e ficou vários anos na casa de um pescador, e provavelmente adquiriu a cor escura devido à fumaça das velas. Essa Nossa Senhora da Conceição virou então Nossa Senhora Aparecida dos pobres e dos desvalidos, protetora dos escravos, das congadas, dos motoqueiros Hell´s Angels e até dos imigrantes japoneses – ou seja, das comunidades mais diferentes. O manto e a coroa que ela usa foram dados pela Princesa Isabel em reconhecimento a uma graça obtida- engravidar. Por todos esses aspectos, o filme não pode frustrar os católicos e não mostrar a Santa.


Aparecida o milagre
Qual a sua expectativa com Aparecida - o Milagre?
Que o filme emocione o espectador pela autenticidade da abordagem, pela forma como transmite o poder da fé para a transformação das pessoas. Marcos é um personagem que perde a fé com a morte do pai e recupera a fé para salvar o filho, quando descobre que ele também é fruto de um milagre. O filme conta uma história sobre a perda e a recuperação da fé em uma família contemporânea, com personagens e conflitos verdadeiros – e nesse sentido considero o filme bem diferente de Chico Xavier ou Nosso Lar, cada um com seus méritos e qualidades. Acredito que atingiremos não só os devotos de Aparecida, mas pessoas de outras crenças e também aquelas sem crença, mas que buscam um caminho espiritual. Nosso objetivo é atingir, tocar, emocionar o espectador sobre o poder da fé – mesmo aquele que não tem fé alguma. Todos poderão assistir ao filme e se sentirem reconfortados.

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