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#977-Quanto Vale Ou É Por Quilo?

*Por Alice Pereira




Um documentário ficcional ou uma ficção documentada? Essa foi a pergunta que martelou em minha cabeça durante quase todo o filme. Na verdade, creio que a obra do cineasta Sérgio Bianchi está mais para a primeira opção. Quanto Vale Ou É Por Quilo? traz à tona questões fundamentais sobre desigualdade, direitos e capitalismo. Refletir sobre tais temas é quase que um dever para cada brasileiro, mas deixemos de lado o moralismo.

Apocalíptico como em Cronicamente Inviável, Bianchi nos mostra uma realidade crua e chocante, onde a classe média brasileira, tocada por um ímpeto espírito de “ajuda”, usa a imagem de pessoas mais pobres para construir sua própria. Ou seja, pessoas com muito dinheiro que usam uma solidariedade hipócrita e tratam a miséria como marketing social.



Na trama, uma ONG implanta o projeto “Informática na Periferia” em uma comunidade carente. Arminda, personagem de Ana Carbatti, está empenhada com o projeto, mas descobre que os computadores foram superfaturados e decide denunciar a situação. Os poderosos da tal ONG, interpretados pela dupla Herson Capri e Caco Ciocler, decidem que ela precisa ser eliminada. Em paralelo, Candinho, um jovem que está desempregado e com a mulher grávida tem que se virar para sobreviver e sustentar a família, e assim transforma-se em um matador de aluguel. É contratado para matar Arminda. Parece simples, mas a história é muito mais densa e com personagens muito mais intensos do que essas poucas linhas apresentaram.


Um dos pontos fortes do filme é a analogia feita entre o comércio de escravos e a então atual exploração da miséria. Ao alternar duas épocas, Bianchi prova que os resquícios da escravidão ainda permanecem em nossa sociedade, e sua crítica ácida recai não só sobre a desigualdade e exploração dos mais pobres, mas também sobre aquilo que muitos têm entendido como solução ou alternativa para os dilemas inerentes ao capitalismo – as ONGs. Exatamente. O filme faz uma grande crítica ao terceiro setor e suas captações de recursos junto ao governo e empresas privadas. Parece meio absurdo pensar que organizações voltadas e treinadas para tentar mudar ou, pelo menos amenizar um problema social, desviem quantidades exorbitantes para o próprio cofre ou, na pior das hipóteses, para o bolso daqueles que detém o poder e, logo, deveriam ser os mais isentos.


Contudo, acho que a falta de esperança com que Bianchi trata do assunto é um tanto catastrófica. Há muitas ONGs que usam dos recursos de forma ilícita? Sim. Isso é um fato, mas nem todas seguem o mesmo raciocínio hipócrita. Nesse aspecto o filme peca um pouco por não mostrar nenhuma solução para o problema traçado na trama. Ainda assim, a sensação ao final é de que nos foi tirado o chão. Quanto Vale Ou É Por Quilo? é, de fato, uma joia do nosso cinema nacional. O filme prova que o famoso “jeitinho brasileiro” não é tão inofensivo e pode afetar e tirar dos que mais necessitam aquilo que eles têm de melhor: a dignidade.
Cotação do Daiblog: DaiblogDaiblogDaiblogDaiblog

Veja aqui o trailer do filme Quanto Vale Ou É Por Quilo?:


Quanto Vale Ou É Por Quilo? (Brasil, 2005) Dirigido por Sergio Bianchi. Com Antonio Abujamra, Caio Blat, Herson Capri, Ana Carbatti, Marcelia Cartaxo, Clara Carvalho, Leona Cavalli, José Rubens Chachá, Leonardo Medeiros...

Daiblog Quer ver o filme Quanto Vale Ou É Por Quilo?

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