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Entrevista com o cineasta Cao Hamburger

Seja no cinema com filmes como O Ano em que Meus País Saíram de Férias, seja na televisão, com Castelo Rá-Tim-Bum, um dos trabalhos para o público infantil mais celebrados, ou em Filhos do Carnaval, o aclamado seriado produzido pela O2 e exibido na HBO, Cao Hamburger é um realizador dedicado à perspectiva humana.
Com Xingu, o paulistano voltará ao Festival de Berlim, evento que o acolheu em 2007 quando O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias disputou o Urso de Ouro – desta vez, integra a sessão Panorama. Em seu terceiro longa-metragem, ele sai do cenário urbano explorado anteriormente em seus trabalhos, vai para lugares distantes do Brasil e encara o desafio de filmar sem os costumeiros elementos cenográficos. O resultado é um filme que mistura gêneros e toca em questões fundamentais do passado e presente brasileiro, buscando o diálogo com um público disposto a conhecer a aventura dos desbravadores Irmãos Villas-Bôas.
De que maneira você acha que Xingu, um filme que toca em aspectos históricos importantes, consegue dialogar com o contemporâneo?
Ele não é apenas um filme atual, mas também urgente. Todo o processo de produção foi muito guiado pela ideia de que o filme tem um papel a cumprir, que é o de levantar a questão de como o Brasil trata os povos indígenas, como pretende pensar o seu futuro e de que maneira quer se colocar no século 21.
O Brasil tem a responsabilidade e a oportunidade de enxergar os povos indígenas tanto como detentores de direitos à sobrevivência digna dentro de sua própria cultura como pessoas que podem ajudar a civilização ocidental a dar a virada que estamos precisando. Esse seria o pulo do gato. É muita prepotência nossa imaginar que apenas a civilização dos moldes da Ocidental evoluiu, que a evolução tecnológica é a única forma de medir o grau de evolução de uma civilização. Nós temos tido evoluções técnicas quase inimagináveis nos últimos séculos, mas ao mesmo tempo temos sido tão vorazes na busca desse desenvolvimento, que involuimos, talvez na mesma proporção, em pontos que estão deixando a vida do homem e do planeta mais difíceis. Nesses pontos os povos indígenas poderiam nos ajudar a enxergar o futuro próximo de outra maneira.
Como foi a negociação para trazer os índios para o seu filme? O relacionamento com os povos indígenas foi um trabalho à parte que começamos cerca de dois anos antes de rodar. Mantivemos um contato intenso tanto para explicar o que significaria uma equipe de filmagem entre eles como para trazê-los para o filme. O roteiro já foi feito com base nos relatos deles e no ponto de vista que eles têm sobre a própria história. Foram nossos parceiros desde o começo.
E a confecção do roteiro, desde o primeiro tratamento que você escreveu junto com Anna Muylaert até os tratamentos seguintes ao lado de Elena Soárez? Começamos o roteiro em paralelo a uma forte pesquisa com a antropóloga Maíra Bühler, do documentário Elevado 3.5. Ela coordenou a pesquisa enquanto eu e a Anna fizemos o primeiro tratamento do roteiro, que continuou a ser aperfeiçoado após a saída da Anna e a entrada da Elena, que ficou até o final. Tanto o Noel, filho do Orlando Villas-Bôas, como a Dona Marina, viúva de Orlando, aceitaram a condição de que teríamos total liberdade. Não leram roteiro e tiveram uma confiança muito grande na gente.
Xingu flerta com diversos gêneros cinematográficos. Essa decisão esteve desde o início do projeto? Quando comecei a mergulhar nesse universo percebi o quanto o preconceito contra o índio no Brasil é descomunal, cruel, injusto e avassalador. Mesmo com o mito de que aqui é terra que acolhe, miscigenada, o índio é visto como povo de terceira ordem. Então me coloquei a seguinte questão: poderia fazer um filme mais contemplativo ou tentar o desafio de fazer filme sobre o universo de um povo desprezado pela sociedade brasileira buscando um grande público. A questão indígena no Brasil é barra pesada e a discriminação se dá em todos os níveis. Serras da Desordem (2006) e Iracema, Uma Transamazônica (1976), dois filmes importantes que abordam a questão indígena, chegaram a ser alguma inspiração para o seu trabalho? Ambos os filmes passaram por mim o tempo todo. Não como referência estética, mas sim pelo respeito aos povos indígenas e a consciência da dificuldade de encarar o tema.
Xingu é protagonizado por Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat, três atores respeitados e de gerações diferentes. Qual é a importância da escolha dos atores para seus filmes? O trabalho de escolha e de direção ocupa, na minha visão, uns 70% do filme. Se você escolheu bem, já está com metade caminho garantido. Se escolheu errado, nunca vai chegar a um resultado satisfatório, no máximo alcançará uma coisa neutra, que não prejudique. O trabalho de escolher um ator é sempre ligado às suas características tanto profissionais quanto as de personalidade, da sua maneira de se colocar no mundo e com o personagem. No caso de Xingu, além de encontrar esses atores que se encaixam no personagem, é preciso que eles tenham química entre si na composição dessa família. Particularmente fiquei satisfeito, pois conseguimos ter a química dos irmãos e ao mesmo tempo atores adequados a cada personagem. Certamente a escolha deles é fator determinante.
Então a escolha dos índios que seriam atores no filme tornou-se mais importante ainda? Foi fundamental. Levamos com muita seriedade desde a pesquisa para levantar os possíveis atores até a escolha de cada personagem, por menor que fosse. O processo foi parecido com as outras vezes que trabalhei com não-atores, como em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias – comunidade judaica – e em Filhos do Carnaval, quando lancei Thogun como ator. Desta vez contei com o produtor de elenco Chico Accioly, que fez a produção do elenco indígena. Ele é sensível e tem muita experiência. Após o material que ele trouxe da pesquisa, Christian Duurvoort passou a fazer a preparação e auxiliar na seleção. Encontramos ótimos atores que poderiam seguir carreira se quisessem.
Xingu ofereceu várias características novas a seus trabalhos, como filmar na mata e assumir uma produção de grandes proporções. Qual é o impacto disso na sua carreira? Filmar na mata ou no serrado é muito interessante porque não temos os elementos com os quais nos acostumamos na cidade. Coisas como porta, cadeira, mesa, telefone, carro, escada etc. Isso estabelece um desafio para a mise-en-scène e colocação de câmera. Gostei muito de poder filmar em ambiente aberto. Rodar nesse ambiente, em locações distantes e de difícil acesso representa desafio. Logo de cara percebemos que não adiantaria querer dominar ou controlar os elementos da natureza, pois iríamos quebrar a cara. O certo seria entrar na correnteza, adaptar-se aproveitar as dificuldades para construir o trabalho. Foi um exercício diário de interação e diálogo com os fenômenos naturais.

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