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Entrevista com o ator e diretor Reginaldo Faria

O Carteiro conta a história de Victor, um rapaz que trabalha como carteiro numa pequena cidade no interior do Rio Grande do Sul. Ele tem como hábito violar a correspondência que entrega aos vizinhos. Um dia, para sua surpresa, cai em sua própria armadilha. Apaixona-se por Marli (Ana Carolina Machado), nova moradora do local, e passa a controlar suas cartas com o namorado, interferindo diretamente nesta relação. O filme é dirigido por Reginaldo Faria, que deu a seguinte entrevista:
Como surgiu o convite para participar do filme O Carteiro?
Há muitos anos comecei a escrever um roteiro com meu sobrinho Mauricio Farias. Era a história de um carteiro que violava correspondências em cartas cifradas. Na seqüência montou todas elas até descobrir que o autor planejara assassinar uma pessoa importante da cidade. O tempo passou e nós não desenvolvemos o roteiro. Um dia, tempos depois, encontrei um lugar singelo através da Vânia, minha mulher. O lugar era o Vale Vêneto. Essa região me impressionou, achei que podia filmar ali. Mais adiante li um poema de Goethe em que ele viu uma florzinha no chão e a florzinha disse para ele: “será para que eu morra que devo ser quebrada?”. Goethe arrancou a florzinha com todas as raízes e a plantou em seu jardim. Ela cresceu e ficou mais e mais florida. Para Goethe, a força da vida foi maior que a curiosidade intelectual. Qual seria o laço entre a curiosidade e a força da vida, ou do amor, no personagem do filme que deveria fazer? Conclui que o essencial estava naquele poema. Voltei ao Carteiro no ano de 2005, sem a ideia de crime, sem violência. O filme foi nascendo. A curiosidade de Victor ao violar correspondências de Marli. O cultivo do amor, o amor roubado; a flor arrancada. O drama e o conflito estabelecidos; os personagens surgindo entre possibilidades e impossibilidades; a oscilação entre o racional e o irracional: “Ela não pode ser do outro. Ela é minha”. O rival, o noivo de Marli como seu maior obstáculo. A paixão no jardim complicado de Victor. O término da relação entre Marli e o noivo. Para que ela não morra precisa ser novamente plantada.
Como foram as filmagens no interior do Rio Grande do Sul?
Jamais esquecerei a bondade e o sorriso de felicidade da cada um dos moradores de Vale Vêneto. Sem o carinho deles o filme jamais seria realizado. Sem equipe, não há filme, e a nossa equipe se formou lá, através da bondade de cada um, do pequeno restaurante e do carinho de D. Romilda; do Seminário, aberto diariamente para que pudéssemos filmar; da Igreja e dos sinos tocando; da Serraria que se transformou em Delegacia; das residências cedidas e sempre fartas de carinho e... de café colonial completo. Até hoje sonho que estou lá.
Como você se sente ao receber indicações para festivais cinematográficos?
Em cada filme que realizo estou sempre no caminho do aprendizado. Por isso, me toca o coração receber a notícia de ser selecionado para festivais. Inevitavelmente mergulho no sentimento da primeira vez, do primeiro contato com a obra, com o trabalho em si; o sentimento de quem não sabe nada e também não sabe porquê está no meio de tantos artistas talentosos.
Quais as suas expectativas ao concorrer em vários festivais?
Expectativa da sensação boa mesclada com o desagradável. Não se consegue fugir ao afrontamento das opiniões. Mas sempre querendo entender que os festivais são o encontro entre os que amam realizar; o encontro para se fazer amizades e para se fazer crescer o nosso cinema. Confesso que mesmo com as emoções desagradáveis: “frio na barriga, arrependimento, vontade de voltar pro colo da mãe ou da mulher amada”, o núcleo das grandes amizades se expande como deveria se expandir o cinema brasileiro.
O que o público deve esperar de O Carteiro?
Quando iniciei o projeto, através de alguns editais, um expert da Finep recusou o filme por não estar direcionado ao público alvo. Sua alegação era a de que a juventude atual não se identificaria com a história, pelo fato, segundo a opinião dele, de que os jovens de hoje são aficionadas na internet. Para mim, público é público e as pessoas do público são seres humanos e os seres humanos têm sentimentos e são capazes de se identificar com os sentimentos dos personagens. Se o cinema é a representação visual e mais fiel de um drama, não podemos subestimar o cinema e nem a inteligência e sensibilidade do público.

Fotos: Fran Rebelatto/Divulgação

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