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Entrevista com o cineasta Eugenio Puppo

*Por Michel Toronaga - micheltoronaga@daiblog.com.br

Eugenio Puppo é o diretor de Sem Pena. O filme, que é uma co-produção Heco Produções e IDDD – Instituto de Defesa do Direito de Defesa, mostra os conflitos decorrentes do processo penal na vida familiar e social de pessoas acusadas de crimes e discute a política criminal seletiva e o encarceramento abusivo que contribuem para o aumento da violência, acentuando o ciclo “cadeia‐rua‐cadeia”.

Como surgiu seu interesse sobre a temática do filme?
Em meados de 2009 fui procurado pela advogada Marina Dias, na época diretora do IDDD (Instituto de Defesa do Direito de Defesa), que me apresentou o trabalho realizado pela instituição e por sua vez comecei a conhecer a realidade do sistema de justiça criminal de nosso país. Fiquei muito impressionado. Então, conversando com Marina, tivemos a ideia de fazer um filme que refletisse essa realidade. Em 2010 Marina assumiu a presidência do IDDD e passei a acompanhar entre outros projetos, o mutirão carcerário que me chamou muito a atenção, visto que muito dos detentos foram presos por terem cometido pequenos furtos ou detidos em circunstâncias duvidosas, alguns sem provas consistentes que justificasse sua prisão. Acompanhei algumas dessas visitas e fiquei ainda mais chocado com a quantidade de casos como esses. No final de 2010 formatamos um projeto já com o resultado da primeira etapa da pesquisa.


Quais presídios foram visitados?
Filmamos presídios em São Paulo e Rio Grande do Sul: Presídio Central – Porto Alegre (RS), Penitenciária Feminina Madre Pelletier - Porto Alegre (RS), Penitenciária Feminina de Santana – SP, Centro de Detenção Provisória de Guarulhos II, Centro de Detenção Provisória de Pinheiros III Penitenciária II de Tremembé (masculina - antigo Instituto de Ressocialização e Trabalho, “IRT”)– Taubaté, SP, Penitenciária Feminina II de Tremembé – Taubaté, SP, IPF – Instituto Psiquiátrico Forense – Porto Alegre (RS). Filmamos também no Rio de Janeiro e Brasília.


Ao mostrar as "entranhas do sistema de justiça do país", você acredita que o público sairá do cinema diferente de como entrou?
A maior motivação para fazer o Sem Pena foi justamente levar o espectador a saber mais sobre o assunto e a refletir sobre como a sociedade de modo geral é preconceituosa, desinformada e equivocada em relação ao tema. É perceptível que estamos chafurdados de lama até o pescoço, hoje a violência em nosso país decorre dessa visão deturpada de uma sociedade punitiva, levada adiante por um Ministério Público muitas vezes vingativo, um Poder Judiciário que prende muito e uma polícia despreparada. Nessa parceria com o IDDD pesquisamos exaustivamente os personagens e as instituições que compõe o conjunto do sistema de justiça criminal, entramos em seus meandros e identificamos um caos, sem exagero nenhum o inferno na terra. Penso que o filme mostra essa realidade sem sensacionalismo televisivo, com bastante profundidade.

O filme mostra denúncias ou situações que muitas pessoas não sabem que acontece?
Se as pessoas realmente soubessem a metade do que acontece acredito que a percepção seria diferente. Diversas situações mostradas no filme são desconhecidas da maioria, mas não é isso o que importa, ao meu ver a força do filme está na maneira em que essas situações são mostradas e relacionadas com esse hermético jogo do sistema de justiça brasileiro.


Quanto tempo levou para o filme ficar pronto? Qual o tempo de filmagens?
A pesquisa foi iniciada em outubro de 2009. As filmagens tiveram início em setembro/2012 e foram concluídas em junho/2013, 10 meses no total, gerando 274 horas de material bruto.

Você procurou humanizar os criminosos? Como foi filmar as famílias dos detentos?
A abordagem do filme em relação aos personagens presos ou que passaram por restrição de liberdade não se pautou pela separação entre culpado e inocente, uma das intenções do filme é justamente propor uma reflexão que, independentemente de ser culpado ou inocente, todos têm direito a um processo justo. Esse jogo de culpado ou inocente não funciona mais, é exaustivamente desgastado pela televisão. Veja por exemplo esses programas que usam a violência como entretenimento, as pessoas já se habituaram com a desgraça alheia, infelizmente. A imprensa de modo geral manipula as notícias da maneira que mais lhe convém. O documentário apresenta as situações e as coloca frente ao espectador, ele que reflita. O filme coloca todos os personagens no mesmo patamar, evitando o discurso da autoridade, enfatizando o raciocínio por de trás de cada personagem.

 

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