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Entrevista com Liev Schreiber, de Spotlight

O ator Liev Schreiber está no elenco de Spotlight - Segredos Revelados, filme baseado em uma história real que mostra um grupo de jornalistas em Boston que reúne milhares de documentos capazes de provar diversos casos de abuso de crianças, causados por padres católicos. Na entrevista a seguir, ele fala sobre seu papel e a participação de jornalistas da vida real no premiado longa-metragem.

Foi importante para você ter os jornalistas de verdade embarcando no projeto?
Eles trataram tudo com tanto cuidado, com uma interpretação tão inteligente dos acontecimentos, bem pesquisada, lúcida e baseada em fatos. Eu não achava possível eles não se envolverem. Existem algumas caracterizações que eu acredito que as pessoas sempre fizeram do Marty. Eles tentavam tirar algo do fato dele ser judeu ou qualquer outro aspecto de sua vida pessoal. De diversas formas isso meio que se refletiu na nossa história. Existem todas essas coisas com as quais sei que ele está acostumado, que eu pensei, ‘Bom, fico pensando como ele irá se sentir a respeito disso e daquilo’. Mas, uma derradeira do Marty, típico dele, é que ele realmente não liga para o que as pessoas pensam. Ele é muito focado na história em longo prazo e, para ele, saber que isso poderia ser um tiro no pé do jornalismo investigativo, fazia com que ele desse seu máximo para apoiar isso. Eu me peguei sentado numa mesa com o ganhador do prêmio Pulitzer, disparando m*** por duas horas.


Onde você o conheceu?
No The Washington Post. Eu fui para Washington. Ele me convidou para nos encontrarmos em seu escritório, um lugar bem inexpressivo! Um personagem impressionante atuando em um local humilde. Ele não tinha um escritório grande. Você sempre pensa em (Jonah) Jameson (risos, referindo-se ao editor personagem das histórias em quadrinhos do Homem Aranha), mas era muito humilde. E aquilo que eu esperava ficou aparente, o jornalismo estava sofrendo e os caras não tinham os recursos para apontar para isso. Isso ficou nítido logo na nossa primeira reunião. Eu ouvi tantas coisas sobre Marty, que ele é inescrutável, fleumático e intenso, mas tive uma impressão completamente diferente sobre ele.

Que impressão você teve?
Nos primeiros cinco ou dez minutos da nossa reunião, eu reconheço que ele foi tão desconfortável quanto eu. Eu nunca pensei sobre isso antes, mas me ocorreu que os jornalistas, provavelmente, não gostam de virar a mesa e isso é uma informação importante sobre os personagens. Eu o vi lutar com isso e eu com meu próprio medo e minha ansiedade de falar com esse cara e sendo relativamente ignorante, comparado a ele (risos). Eu me senti completamente desqualificado na sua presença, deixado sozinho para interpretá-lo. Eu o vi meio que me avaliando e pensando, ‘Agora o que digo para esse ator de Ray Donovan que irá me interpretar em um filme?’. Eu estou caracterizando seus pensamentos, não sei se ele realmente pensou assim, mas senti, de forma intuitiva, que ele tem uma mente tão maravilhosa que ele era bem capaz de ir direto para a melhor conclusão possível: ‘Se esse filme tiver um impacto positivo no futuro do jornalismo investigativo, eu preciso me abrir para esse cara, por mais desconfortável que seja e dar-lhe todas as ferramentas que eu puder.  



Então, ele estava bem aberto ao processo?
Ele teria sentado comigo por horas, até dias, se eu precisasse. Ele foi muito generoso. Um das coisas que mais chamou a minha atenção e, de certa forma, se tornou uma das bases para o personagem, foi uma história que ele me contou sobre quando ele era repórter do The L.A Times. Ele gostava de ir até esse bar no centro, chamado The Red Door, eu acho, não tenho certeza do nome, onde eles gostavam de beber e falar mal dos editores. Ele disse que, desde que se tornou editor, não fazia mais isso, não era permitido. Isso me disse muito sobre o cara. A responsabilidade que ele assumiu e seu compromisso de vida com isso. E eles não ganham muito dinheiro, nenhum desses caras. O que está por detrás disso? E para onde foi aquele orgulho, aquela integridade e o senso de dever cumprido? Marty está certo ao dizer que está tudo lá, só é cada vez mais difícil de apoiar com recursos, financeiramente. Principalmente o aspecto mais importante, que é esse jornalismo local investigativo.

O que nós perdemos sem aquele tipo de reportagem?
Bom, não vou mentir e dizer que conhecia muito do tema antes de entrar nesse projeto. Mas, o que aprendi com Marty e esses jornalistas é o quanto o jornalismo investigativo é importante para uma democracia sólida, decente e justa. Se não temos esses caras brigando por nós, responsabilizando grandes corporações e indivíduos por seus atos, sinceramente, estamos ferrados. Eu tento pensar em um mundo melhor, mas acho que estamos com problemas sem eles. Mas estamos com um problema maior se perdemos o interesse. Acho que isso é talvez um sintoma da tendência na mídia, que é, na minha opinião, o comercial da notícia, o sensacionalismo, todas essas coisas que tiram a nossa atenção do que realmente precisamos e do que importa. Marty me disse, no outro dia mesmo, que existem diversos estados sem uma cobertura sobre a legislação do governo, do gabinete do prefeito. Todos esses recursos estão tão escassos e isso é um problema. Eu acho que Tom e Josh [Singer] fizeram um trabalho excelente, capturando a essência do jornalismo americano.


Você acha importante que Marty tenha tratado essa história como alguém de fora?
Eu acho que Marty teria dito ‘Não importa e não deveria importar’, mas eu não acho que tenha nada negando que isso aconteceu. O personagem Garabedian tem uma fala onde diz que precisou de alguém de fora para lidar com isso. É sempre mais fácil para os outros enxergarem nossas próprias questões do que é para nós mesmos, já que estamos tão envolvidos. Acho que essa é uma das melhores qualidades de Marty. Ele não está lá para cansar os cotovelos na mesa, ele está lá para trabalhar. Um dia antes de sua primeira reunião de equipe como editor chefe do jornal, ele leu a coluna de Eileen McNamara sobre o caso Geoghan e, ao final, Eileen escreveu, ‘A verdade pode nunca ser descoberta porque esses documentos estão selados pela Igreja’. E Marty achou isso inaceitável. Eu acho que ele não estava tentando pegar a Igreja Católica, ele estava tentando fazer seu trabalho, que é buscar conteúdo que torna o jornal uma leitura essencial para a comunidade local. Esse conteúdo criou uma história internacional.

Então, foi o básico do trabalho que levou a essa história enorme?
Isso é marcante no Marty. Ele só estava tentando fazer seu trabalho de editor. Ele não ligava se era de Miami. Ali era Boston, então ele precisava descobrir quais histórias eram mais importantes para Boston. Ele olhava para coisas importantes como essa e pensvaa, ‘Isso importa para os pais das crianças de Boston e para todas as pessoas. Por que não podemos saber a verdade? Porque os documentos estão selados?’. Existe uma legislação em Miami muito boa no caso de acesso a arquivos. Em Boston não é esse o caso e ele precisava saber? Claro, havia uma boa razão (risos).



Por que a Igreja simplesmente não se livrou dos padres agressores? Porque encobriram?
Muitas pessoas me perguntaram isso. Eu realmente não sei a resposta. Eu sei o que você está dizendo e essa pergunta é um tanto retórica, mas, ao mesmo tempo, quando você pensa nos atos deles, você questiona ‘Ok, se eu fosse essa pessoa, o que eu faria?’. Talvez eles tenham pensado que precisavam conter isso e, quando digo conter, eu quero dizer manter suas partes ofensivas junto ao corpo – sem querer pegar emprestado de uma metáfora católica – mas acho que esse era o pensamento por detrás de tudo. Eles lidariam com o caso internamente e essa seria a melhor forma para eles. Talvez fosse perigoso deixar alguém de fora penetrar no problema. Era problema deles e eles precisavam lidar com isso.

Um comentário:

  1. Com a barba que eu não reconheci que é Ray Donovan. Essa é uma das minhas séries favoritas, porque é uma das melhores series atualmente na televisão, mas é uma pena que não torná-lo muito promoção. Ele acaba de estrear a quarta temporada, mas espero continuar renovando, porque é tão bom que não é difícil que há pessoas com um emprego como o seu acreditar.

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