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Um papo com Alê Abreu, de O Menino e o Mundo

*Por Leonardo Resende

É com um rabisco simples, porém genuíno, que o diretor e animador Alê Abreu encontrou para expressar que os filmes de animação não são reféns de efeitos especiais. Com o seu segundo longa-metragem, O Menino e o Mundo, Alê mostra um menino ambientado num mundo grandioso e muitas vezes confuso. Utilizando o lúdico, a trilha sonora do grupo Barbatuques e uma mistura talentosa de técnicas, seu trabalho conseguiu uma vaga no Oscar 2016 na categoria Melhor Animação. Em uma entrevista realizada para a Hashtag Cinema, Alê conta sobre processo criativo de seus filmes, como foi montar, idealizar e finalizar O Menino e o Mundo, as questões morais da animação e como tudo começou com o cinema.
  
O que suas obras têm em comum? Existe algum tema que define seus filmes?
A primeira coisa que vem na minha cabeça é a questão da viagem do personagem, da busca, e o deslocamento. Meus últimos trabalhos têm esse aspecto em comum. No Garoto Cósmico, você tem a viagem dos três meninos perdidos no espaço. Pássaro também apresenta isso, um animal se libertando. Nos meus próximos projetos também têm personagens com a necessidade de deslocamento.

Foto: Aline Arruda/Divulgação
O Menino e o Mundo apresenta momentos muito dramáticos, como a lembrança do menino com os pais, um momento em que eles se reúnem. 
Essa cena é o coração do filme. Aquele momento para mim é onde tudo se resolve, onde as três mãos sobrepostas mostram todo o sentido do filme. O sentido cósmico e amplo que aquilo representa esteticamente. Temos ao mesmo tempo nossa insignificância e grandiosidade.

Protagonizada pelo grupo Barbatuques, a trilha sonora também funciona como um personagem central do filme O Menino e o Mundo
A trilha sonora apresenta muitos sentidos. É algo que não consigo explicar em poucas palavras porque esse elemento é muito grande dentro da estrutura do filme. Em termos de produção, ela foi desenvolvida juntamente com o trabalho de criação das imagens. Fizemos uma espécie de diálogo com as imagens prontas. Mandamo-las para o pessoal da trilha sonora e eles as devolviam com música. A partir delas adicionávamos no filme. Foi um trabalho de idas e vindas com o estúdio de som. Eu já tinha trabalhado com Gustavo Kurlat e Rubens Feffer no Garoto Cósmico (meu primeiro longa-metragem). Por isso já damos muito bem, então nesse sentido foi muito prazeroso a parte da trilha sonora, que particularmente eu gosto muito. Todos os meus filmes são muito musicais, conto muito com a música como elemento poético.


O Menino e o Mundo utiliza a questão musical como protesto à opressão? Por que o uso desse elemento? Em um dos momentos do filme, o Menino encontra diversas pessoas cantando e dançando. O resultado musical é um pássaro que luta contra outro mais forte. 
Este momento especialmente dos manifestantes, seguido do confronto, foi muito inspirado nas músicas de protestos. Bebemos muito dessa fonte, principalmente do rap para fechar o filme. Somente no final, com os créditos que temos uma canção com letras. Essa foi uma maneira que encontramos de colocar os ‘pés do filme’ no chão. Trazê-lo para a realidade. O Emicida que cuidou de colocar nas letras o quesito de liberdade do filme.

Qual o principal motivo da ausência de diálogos? Como foi o processo de criação deste idioma?
A ideia de trabalhar com um filme sem diálogos nasceu devido à utilização de desenhos e animações. A partir disso percebemos como não havia a necessidade do diálogo. Achamos que o filme ficaria muito mais forte com a ausência deles. Em um determinado momento tínhamos diálogos, mas depois achamos que seria legal assumir de vez essa história sem falas. Por isso criamos uma língua que mostrava uma linguagem entre mãe e pai. Usamos a inversão do português para não ficar tão incompreensível. Além disso, existia a vontade de transmitir a sensação de que não estamos na terra, que estamos em outro planeta. Tirando a gente desse planeta, encontramos ainda mais razão para fazer o que os personagens explorassem ainda mais a liberdade do olhar de uma criança que fosse de outro mundo.


Qual o principal foco de O Menino e o Mundo? A utilização do lúdico é uma maneira de disfarçar o mundo opressor que ele vive ou apenas uma visão da criança? 
O que nos orientou a realização do filme foi um olhar daquele menino. A visão do entendimento de uma criança que vive nas margens de uma sociedade. É uma história trágica da perda de um pai. Isso também tem sua simbologia que remete a um contexto da América Latina de uma criança que nasceu sem um pai pátria. Temos uma infância de um país explorado. Tudo funciona de acordo com uma simbologia que serve como poesia do filme. Mas o foco, para mim, é a mira do olhar dessa criança, ela que nos dirigiu a realização do filme. Sobre o lúdico, o utilizamos o tempo todo, é aquele momento que ela olha a realidade. É como se o menino fosse o diretor do filme, é ele lidando com a sua liberdade. A questão é trazer essa visão a serviço da história.

Quais são seus futuros projetos? Pretende transformar O Menino e o Mundo em uma franquia?
Eu estou trabalhando em dois roteiros. Eles são parcerias com a Buriti Filmes. Nós nos encontramos para o próximo filme, que chama Viajantes do Bosque Encantado. Animação que conta a história de crianças que estão perdidas numa floresta onde coisas estranhas acontecem. São crianças inimigas, de reinos inimigos e são obrigadas a se entenderem, em uma questão de sobrevivência.



Como começou sua fascinação por animação? Começou a trabalhar com artes plásticas? Ou seu foco sempre foi animação?
Eu comecei com os quadrinhos e, quando eu tinha 13 anos, vi um anúncio de um concurso de animação no Museu da Imagem e do Som. Meu pai me levou neste curso. A partir disso, eu fui cada vez mais me encantando pela animação, fazendo paralelamente quadrinhos e animação. Depois disso a animação nunca descolou do meu trabalho. Acho que meu trabalho é uma mistura de tudo isso, mas eu pinto diariamente. Teve um período que ilustrei muito, fiz campanhas publicitárias e livros. A publicidade foi um método de sobrevivência. Sobrevivi fazendo desenhos para publicidade, mas parei e comecei a ilustrar livros. Uma necessidade de autoria mesmo, para fazer minhas coisas, de encontrar meu estilo de trabalho. Mas foi aí que o cinema de animação tomou espaço e não tinha como mais continuar ilustrando, meus filmes foram crescendo e me chamando. Até tenho uma série que está sendo pensada com uma produtora francesa. Na série vamos usar menino nesta fase, contextualizar a história que ele vive no longa. Vai apresentar o mundo para as crianças.

Você traduz algumas características suas para seus filmes? Ou melhor, levar algo pessoal para seus personagens?
Acho inevitável, tudo que é relacionado com a verdade aparece muito da gente, mas acaba também do que a gente percebe dos outros, de quem circunda que eu conheço que acaba entrando muito mais nos personagens do que eu mesmo. Vira uma mistura.

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