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Artigo: O Regresso, de Alejandro G. Iñárritu

Por Valdemir Pires

O Regresso rendeu três Oscars: direção, melhor ator (para Leonardo Di Caprio, que nem precisou decorar texto, mas teve que introjetar profundamente um Hugh Glass dilacerado por dentro e por fora, o tempo todo) e melhor fotografia (uma valorização das grandes tomadas para mostrar a força da natureza e a pequenez do homem, além de sua capacidade de se adaptar e resistir).


Trata-se de uma película tipicamente hollywodiana, à base de uma saga de herói (Christopher Vogler explica e pontifica a respeito deste formato) em contexto de faroeste, na qual os personagens são planos, simples, representando bem e mal de modo completamente maniqueísta, absorvendo o espectador por 2h36min, graças à tensão presente nas cenas de confronto, enfrentamento de adversidades de uma jornada dura e perseguição; e graças, também à descompressão proporcionada pelas tomadas em que americanos, franceses e indígenas são engolidos e às vezes mastigados pela natureza onipotente do Novo Mundo, selvagem pela geografia e também pelos seus ocupantes originais.


O fio condutor da trama: Hugh Glass regressa (praticamente da morte) para vingar o assassinato do filho (Hawk, Forrest Goodluck) e o próprio abandono à sorte (depois de gravemente ferido por um urso), por John Fitzgerald (Tom Hardy); ele que antes vivera o trauma de ter sua mulher (uma “pele vermelha”) morta por homens brancos que atacaram sua tribo, ferindo inclusive o filho, salvo por ele.


Cobiça, obstinação e vingança são os temas A história é de homens em busca de riqueza (peles e não ouro ou pedras e metais preciosos), enfrentando obstinadamente o rigor das estações, as adversidades geográficas, doenças e acidentes, ataques dos índios ferozes e, destacadamente, a possibilidade de traição entre eles próprios. A inância à traição é magnificada: o traidor é caçado até a morte – final justo, mas não feliz.


Imersos em um ambiente tão hostil, um grupo de poucas dezenas de homens não pode tolerar, de modo algum, um quinta coluna entre eles. Embora tenha sido necessário Glass se converter em herói para vir a vingar-se de Fitzgerald (que zomba até mesmo de Deus: Ele é um esquilo, muito bom para se comer quando se está faminto), foi antes buscado pelo capitão do grupo (Andrew Henry, Domhnall Gleeson), para ser justiçado por não honrar ter sido pago para cuidar de Glass em sua convalescência e enterrá-lo dignamente caso viesse a falecer. No confronto, morre o capitão. O mal vai vencendo.


Mal que acossa a consciência, cada vez mais pesada, de Bridger (Will Poulter), conhecedor das atrocidades de Fitzgerald e, à revelia de sua vontade, cúmplice dele. Mal que os homens brancos vivem questionando se prevaleceria também entre os índios (Não teria sido melhor os americanos não terem feito o que fizeram com os “pele vermelhas”?) – questionamento que no filme se apresenta na forma onírica de falas consoladoras e incitadoras da mulher morta de Glass e reaparece na caçada aos franceses que raptaram a filha de um chefe tribal.


Visões de mundo em confronto, valores em jogo. Num contexto de valores minguantes, em que a sociedade americana chafurda na lama de uma crise provocada pela exacerbação de seu mote principal, bandeira de seu processo civilizatório: os negócios e a sagacidade individual. Que não deixam margem a poesia alguma: como imaginar um homem branco se divertindo com o ato de esticar sua língua para recolher flocos de neve e engoli-los, em meio às à ameaça de uma tempestade que vem chegando, estando eles sem abrigo?

Valdemir Pires é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.

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