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O Olho e O Espírito traz experimentalismo vintage

Dentro da mostra Autorias Femininas está o curta O Olho e O Espírito, de Amanda Beça. Experimental, a produção de Pernambuco chama a atenção por ter sido filmada em 16mm e revelada em um laboratório caseiro construído pelas próprias mãos da cineasta. Amanda enfrentou os desafios de pós-produção inteiramente analógica. O Cine61 - Cinema Fora do Comum, entrevistou a diretora para que ela explicasse melhor como foi fazer seu primeiro curta-metragem autoral.

Conta um pouco como se deu a escolha de ir na contramão do cinema digital.
Antes de haver a ideia do filme, houve a oportunidade de aprender a revelar película 16mm com a dupla de artistas Melissa Dullius e Gustavo Jahn (Distruktur); primeiro no Brasil em 2011 e depois em Berlim, onde eles moram e onde eu fiz intercâmbio pelo Ciências Sem Fronteiras em 2012/2013. Mas uma vez aprendendo a revelar, comprar um rolo de película não era (e ainda não é) barato, então eu só via sentido em apostar nas revelações se fosse pra utilizar as imagens reveladas em algum filme. Daí nasceu a ideia disparadora que daria origem a O Olho e O Espírito anos mais tarde. Tentei fazer essa ideia lá em Berlim, mas não ficou tão legal. Então quando voltei ao Brasil para concluir meu curso de Cinema e Audiovisual, aproveitei minha experiência do intercâmbio para fazer um projeto que consistia em um estudo de revelação em película preta e branca reversível em um país tropical com poucos recursos. O Olho e O Espírito é o resultado final deste estudo. Não foi deliberadamente decidir por ir na contramão do cinema digital, mas sim por um prazer em manipular a formação da imagem na película.


Você já tinha uma filmadora 16mm? Como foi o processo da revelação?
Quando voltei a Recife, outros artistas estavam com um projeto de começar um laboratório independente de revelação de película, chamado Co.lab - Laboratório Colírio. Me juntei a essas pessoas e conheci o Ж, artista paulista-pernambucano que tinha uma Kragnogorsk-3, câmera 16mm russa. Ele foi um entusiasta do meu projeto e me emprestou a câmera sem custo algum. Mas o projeto de um laboratório comum não conseguiu ir muito à frente e eu precisei me virar sozinha. Existe um laboratório de revelação na Universidade Católica de Pernambuco graças ao curso de Fotografia, mas como eu não era aluna de lá e meu projeto demandava muito tempo para a revelação, decidi por usar a dependência da casa dos meus pais para montar um laboratório gambiarra, tudo improvisado. Quanto aos químicos de revelação, eu precisei comprar os reagentes químicos e brincar de Breaking Bad. Quanto à revelação em si, usei um tanque que Melissa e Gustavo deixaram em 2011 como herança. 


O que o cinema perdeu em tempos de alta resolução e imagens gravadas em cartões de memória?
Não creio que deveríamos enxergar isso como uma "perda", afinal a tecnologia do digital evoluiu bastante e consegue nos oferecer imagens também muito bonitas, passíveis de um certo sublime. O que muda é a sensação que a estética produzida por cada dispositivo desperta em nós. Acredito que a potência das imagens está no uso e no sentido que damos a elas, dentro de um determinado contexto, e não na máquina que a produz.

Você também se interessa por lomografia?
Me interessava por lomografia quando era adolescente. Este interesse foi o que me levou a descobrir a fotografia analógica e posteriormente entrar no curso de revelação oferecido pela Melissa e o Gustavo em 2011.


Comenta um pouco sobre seu filme, por favor.
Eu passei um tempo em crise quanto a minha decisão por fazer um filme em película. Pra que isso? Eu tinha em mim que o curta que se resultasse desses estudos em revelação não poderia cair no fetiche da imagem pela imagem. Então teria que ser um filme que só fizesse sentido em película, que se fosse em digital não provocaria a mesma relação do espectador com o que ele estava vendo. Então me aproveitei que a revelação caseira daria um ar rústico às imagens, remetendo ao primeiro cinema, e então quis criar um diálogo com o que era filmado nos meados de 1900-1920 para ver o que mudava 100 anos depois (2015-17). Termina que ao vermos um Recife atual numa estética do passado, somos levados ao futuro. E acredito que isso nos provoca a imaginar nossos afetos e nossa noção de História: hoje, nós da classe média cultural, criticamos os arranha-céus, o investimento nos carros em detrimento dos transportes públicos, enfim..., este modelo urbano arquitetônico excludente que sistematicamente devora nossos espaços públicos e privados. Mas ao mesmo tempo nutrimos imenso afeto pela arquitetura do nosso passado branco, que igualmente sustentava uma estratificação social racista e excludente. Então... se hoje ocupamos o Cais José Estelita para barrar projetos arquitetônicos horríveis como o Novo Recife, será que nossos bisnetos um dia ocuparão, por exemplo, os Shoppings Centers contra algum projeto urbano ainda pior? Como desenrolei o filme a partir dessa provocação é voltado ao que acredito estarmos cada vez mais fadados: se continuarmos nesse curso de exploração e progresso conheceremos o fim deste mundo. Não o fim do mundo, mas o fim deste mundo tal qual conhecemos. Nosso modelo de existência está fadado a auto-destruição.

Serviço
2º Festival de Cinema do Paranoá 
De 23 a 29 de abril (segunda a domingo)
Local: Centro de Desenvolvimento e Cultura do Paranoá  - CEDEP (Q. 9 Conjunto D)
Exibição dos filmes: De 26 a 29 de abril, a partir das 15h. As atividades paralelas acontecem na semana, durante o dia. Confira horário, programação completa e classificação indicativa em: www.grupooitavaarte.com.br

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