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A Câmera de João e a fotografia como resgate do passado

O curta-metragem A Câmera de João, de Tothi Cardoso, integra a Mostra Competitiva da 20ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), na Cidade de Goiás, em Goiás. O Cine61 - Cinema Fora do Comum conversou com o cineasta, que falou sobre o mais recente trabalho. O filme retrata o Bairro de Campinas, em Goiânia, a partir do olhar do garoto João, que descobre a fotografia pelo avô, um fotógrafo saudosista que coleciona registros da cidade. 

No curta, João descobre a fotografia a partir da figura do avô. Qual o impacto da fotografia nesses personagens e qual relação se estabelece entre neto, avô e fotografia?
Tenho que o filme, antes de tudo, pretende servir as relações familiares, memórias e compartilhamento de sensações. Ele se desloca e descobre. Revela lugares, coisas, lembranças e pessoas através da fotografia, desejo comum entre os personagens. A figura do avô como mentor e incentivador permite que o neto absorva um conhecimento que atribuo como sabedoria ancestral dentro do contexto da narrativa. O velho, ao ser colocado naquela posição de usar da oralidade instrutiva para passar conhecimento, usando como fonte do desejo, uma caixa de memórias e sentimentos íntimos, desperta a sensibilidade, já presente  nos olhos naquela criança. E ao perceber o universo contido ali, e conseguir decodificar o valor da fotografia como herança, ao ser recebida,  reafirma o elo entre  avô e neto, e seus respectivos tempos. Isso num contexto de cidade, especificamente, o Bairro de Campinas, em Goiânia,  alcançar referências do passado e interpretar  o presente, como faz João, através da sensibilidade ao ouvir e ver fragmentos sobre as memória do avô e suas experiências, e a partir dali buscar suas próprias vivências.


O curta foi selecionado para o FICA, um festival voltado para questões ambientais. A Câmera de João busca alguma reflexão nesse sentido?
Antes é importante que tenhamos claro que a perspectiva de cinema ambiental se constitui de diversas outras possibilidades, inclusive na subjetividade das propostas, assim destoando da associação mais direta que pode nos remeter apenas ao meio ambiente constituído de natureza (fauna e flora). O filme se passa em meio urbano e acompanha as ações e efeitos das intervenções humanas ao longo do tempo naquele fragmento de cidade, o que é comum em capitais em função da demanda de otimização dos espaços motivados pelo progresso, sobretudo pelo regime econômico ao qual estamos inseridos. A princípio, a história não foi desenvolvida por este viés ambiental, a medida que o roteiro foi sendo trabalhado, as questões sobre a transformação do espaço urbano foram ficando  mais evidentes. Ao evoluirmos na pesquisa sobre o antigo bairro de Campinas, principalmente por acessar fotografias das décadas de 40 a 70 do fotógrafo Hélio de Oliveira, que apontavam para um bairro com clima mais amistoso e harmônico entre moradores, espaços de convivência e lazer, onde muitos já não existem mais, ou foram derrubados, transformados ou adaptados para outras funcionalidades. Estas ações, praticamente relegou ao bairro apenas a função comercial de sua avenida principal e entorno aproximado, mas que ainda preserva um certo contraste por existir construções particulares e marcos arquitetônicos que resistem e preservam o tempo antigo nas ruas.
Para o filme, se tornou importante trazer essa reflexão sob a perspectiva de mudança do espaço através dos registros antigos, reproduzindo-os sob o olhar de uma criança em tempo presente, gerando um novo documento atualizado do bairro, bem como seus símbolos arquitetônicos. A fotografia, tem na essência a capacidade primitiva do registro, e essa função social de demarcação de tempo e espaço.


A representatividade está em alta nos "blockbusters", como Pantera Negra. Você integra o selo "Filmes de Preto" e A Câmera de João é seu primeiro curta na direção e traz o negro como protagonista. Qual tipo de discussão seu curta levanta sobre essa temática?
Acredito que muito antes de Pantera Negra, várias outras ações afirmativas e discussões sobre representatividade da mulher e do homem negro(a) no cinema, tanto nas produções nacionais independentes, quanto as de fora. As figuras do realizador/autor  e atores protagonistas em tela já foram propostas em tantas  outras produções tão significativas, ou mais que Pantera Negra (que se tornou um marco recente, dada a sua estratégia global de distribuição e divulgação massiva). Estas questões efetivas que demarcam o momento atual estão relacionadas também a outros elementos que se encontram e desdobram, como a essa nova dinâmica de difusão e acesso as informações e conteúdos, via internet. Que é essencial fazer uso desses suportes. Importante citar as recentes estratégias nacionais de investimento público a grupos específicos - mulheres, negros e indígenas -  que possibilitam aumento da produção e divulgação destes novos produtos audiovisuais que reivindicam este espaço se apropriando do direito de propor histórias que reflitam as perspectivas de vida do nosso povo. Aqui no Brasil, temos Adélia Sampaio e Zózimo Bulbul como referências de uma vanguarda representativa, e da nova geração, Yasmin Thayná, André Novais, Gabriel Martins e uma galera que vem chegando pesado para fortalecer este momento que é de se firmar e consolidar a visão. A Câmera de João é mais uma produção que se posta significativa por se inspirar nesse movimento anterior e evolutivo de como me representar e representar meu povo numa condição natural de vida. Com direito a tudo. Isso fez com que me apontasse para a importância de criar um universo onde uma criança preta e sua família seja recebida pelo espectador de maneira integral, dotada de todas as capacidades sociais e criativas.


A Câmera de João também apresenta a sua relação afetiva de fazer cinema. Como isso está representado no curta?
A Câmera de João foi meu primeiro projeto como autor, assumindo roteiro e direção. Desde a faculdade fui iniciado em arranjos de produção menos complexos, vaidosos e estratificados entre funções, as decisões eram mais inclusivas entre a equipe, mesmo  havendo a estrutura padrão de formação de funções. Devo minha capacitação também ao coletivo audiovisual universitário Dafuq Filmes que passou a existir nesse movimento, e hoje é uma produtora com organização simplificada.  De certa maneira isso me proporcionava mais intimidade em fazer cinema. Isso foi se transformando um pouco a medida que fui caindo pro mercado e suas necessidades formatadas, imprimindo outro ritmo, mais rígido, inclusive, no que diz respeito a hierarquia  e disposição de recursos para produzir. O João, por exemplo é reflexo dessas minhas passagens todas até aqui. Ele foi produzido com recurso e grande estrutura, porém, pude contar com vários colegas da minha formação universitária na equipe, isso proporcionava um ambiente de trabalho de certa forma mais afetuoso. De maneira mais direta e determinante, aposto nas ações intuitivas  que despertam e refletem em decisões a longo prazo, que me permito influenciar. Ser autor é diferente de ser realizador, quando se permite libertar das convenções impostas sob demanda para produzir arte, ali no trato fino da obra. As questões afetivas  que podem ser percebidas no filme, desde o roteiro, a psicologia dos personagens, o espaço da casa e a maneira que são filmados, podem ser atribuídas ao meu hábito de filmar minha família dentro de casa em suas ações cotidianas. Há mais de cinco anos registro meus avós, minha mãe, irmã e sobrinho, que inclusive é homônimo do protagonista e serviu como total inspiração para a traçar o perfil do garoto do filme.


Em 2017, o curta também participou do FICA pela Mostra Cine ABD Goiás  e levou o prêmio de melhor som. Agora, A Câmera de João integra a Mostra Competitiva. Qual a expectativa?
A mostra ABD Goiás,  pra mim, é a janela mais representativa  dentro do recorte de produções locais. É o panorama mais inclusivo do que se faz por aqui. Foi lá a primeira participação do João no circuito de festivais. Voltar com o filme este ano, dentro da mostra principal do FICA, só reforça que a narrativa se relaciona bem com suas potências e possibilidades ao trazer referências sobre os tempos, pessoas e espaço. A maior surpresa deste ano é que o filme terá sua primeira exibição com acessibilidade. Numa mostra paralela dentro da programação do festival, será exibido com audiodescrição  para pessoas portadoras de deficiência visual. A Câmera de João completa seu primeiro ano de exibições em festivais, justamente na mesma cidade que o projetou em primeiro. Isso é significativo para mim, pois até hoje foi a primeira e única vez que o vi naquelas dimensões de cinema, e agora verei novamente.

*Por Vinícius Remer da Silva - Especial para o Cine61 - contato@cine61.com.br

O jornalista viajou a convite da produção do FICA

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