Super Hiper Mega Banner

Cineasta fala sobre o documentário O Diriti de Bdé Burê

O documentário O Diriti de Bdé Burê, de Silvana Belini, integra a Mostra Competitiva da 20ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), na Cidade de Goiás, em Goiás. O Cine61 - Cinema Fora do Comum conversou com a cineasta sobre o filme, que retrata a vida de uma indígena mestre ceramista que trabalha fazendo a famosa boneca Karajá, ofício que é um patrimônio cultural brasileiro.

Você é doutora em Sociologia e seus estudos são referentes às questões sociais, como as relações de gênero. O Diriti de Bdé Burê traz como protagonista uma indígena mestra ceramista. Qual a importância dessa mulher para seus estudos e como isso se estabelece no curta?
Ao colocar em discussão questões como relações de gênero, cidadania, direitos humanos das mulheres e ecofeminismo, por refletirem sempre a dinâmica das relações sociais e estruturas do poder vigente, sempre discussões acaloradas são suscitadas. A questão se torna ainda mais problemática quando se coloca junto a estas, a questão indígena e o meio ambiente. Na realidade, Diriti de Bdé Buré é reflexo de um longo processo de maturação e pesquisas no campo de gênero, mas, sobretudo, de preocupações com a temática dialogal entre gênero e etnia. Não se trata apenas de uma mulher, indígena, ceramista, mas da própria forma de protesto contra a violação dos direitos destas categorias e da necessidade de formas de resistência nas suas mais variadas formas.


O Fica é um festival voltado para questões ambientais. Os indígenas sofrem com o avanço de ruralistas, desmatamentos e a não-demarcação dos seus territórios. Qual a reflexão o curta traz sobre esse grupo?
Diriti vive em Bdè Burè, uma aldeia urbana às margens do rio Araguaia e que sofre os impactos da influência da cidade onde há um turismo gerador de incidência excessiva de barcos e destruição ambiental. Cabe lembrar que a apreensão com os problemas ecológicos e ambientais aumenta consideravelmente com o passar do tempo e, desde a década de 1970, a destruição do meio ambiente tem sido discutida por feministas que a associam à formas de dominação e opressão às mulheres no panorama de ampliação da política capitalista. A relação entre gênero e desenvolvimento sustentável na questão das mulheres indígenas na qual Diriti está inserida busca levantar aspectos inerentes à situação que se estabelece entre a necessidade de subsistência e os atributos culturais e ecológicos da sustentabilidade. Traz a urgência de políticas públicas de estado que preservem a cultura de um povo que está sofrendo os efeitos devastadores da exploração da natureza e, claro, a compreensão que isso não ocorrerá se não houver uma inserção da sociedade nesse processo.


Ao abordar a vida dessa protagonista ceramista, como foi a recepção dela ao filme e quais as características mais interessantes você absorveu da cultura dela?
O filme tinha por objetivo mostrar como a feitura da Ritxoko pela indígena Diriti e pode ser identificada como possibilidade de manutenção da cultura de um povo juntamente com a subsistência das mulheres, e a proposta foi aceita com bastante tranquilidade por ela. Ficando bastante claro como esta indígena a partir do ato de fazer a boneca mantém sua cultura numa lógica do reconhecimento ao mesmo tempo em que prescinde da redistribuição.


Como foi a recepção do curta em outros festivais e qual a sua expectativa para o Fica?
Tivemos a grata satisfação de ser aceito e apresentado no Fronteira Festival no qual teve uma excelente recepção, e agora selecionado na Mostra Abd e também no Fica. Nossa expectativa é que pela grandeza e respeitabilidade que o Fica adquiriu nacional e internacionalmente,o filme tenha a possibilidade de mostrar sua principal proposta que é a de dar visibilidade a questão de como uma mulher indígena idosa moradora de uma aldeia urbana continua com a feitura da boneca Karajá sua trajetória de luta por sua própria subsistência na medida em que busca manter viva a cultura Karajá.

Quais os desafios na produção do curta? A língua falada pela indígena, como foi a comunicação entre vocês?
Nosso maior desafio foi realmente o fato de Diriti não ter um total domínio da língua portuguesa. Questão que foi minimizada pela tradução do Karajá por seu filho Cacique Tohobari.

*Por Víncius Remer Silva - Especial para o Cine61 - contato@cine61.com.br


O jornalista viajou à convite da organização do festival

Nenhum comentário

Todos os comentários do Cine61 são moderados por nossa equipe. Mensagens ofensivas não serão aprovadas. Obrigado pela visita!

Tecnologia do Blogger.