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Curta Nanã expõe o drama da gentrificação

Rafael Amorim, diretor de Nanã, conversou com o Cine61 - Cinema Fora do Comum sobre seu curta-metragem. O filme será exibido hoje na Mostra Competitiva da 20ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), que acontece na Cidade de Goiás, em Goiás. Leia a seguir a entrevista com o realizador:

Seu filme fala sobre o processo de gentrificação. Você já presenciou isso de verdade?
Durante a pesquisa do filme presenciei uma ação da milícia que atua na região em nome do complexo portuário de Suape. É um grupo de uma empresa de segurança privada que atua aterrorizando a população, chegando ao extremo de “confiscar” materiais de construção até demolir casas. Ainda em 2016 na comunidade da “guarita”, presenciei a Milícia colocando materiais de construção em um carro oficial da empresa Suape em evidente contra vontade de um morador. Me aproximei do local já filmando e perguntando o nome dos funcionários o que estava acontecendo. Um deles insinuou que eu não poderia estar filmando aquela ação. A situação ficou mais tensa quando eu me neguei a parar de filmar. A cena que mais lembro nesse dia foi quando um deles começou também começou a me filmar com um celular e as câmeras ficaram frente e frente, numa postara simbólica de enfrentamento. Em pouco tempo eles entraram no carro e foram embora. No dia seguinte recebi uma ligação de um morador me informando que eles tinham voltado ao local completaram de retirara o material de construção e ainda derrubaram uma casa em construção. No dia 6 de dezembro de 2017, na Câmera de Vereadores do Cabo de Santo Agostinho foi realizada uma audiência pública com tema, “Ação de Milícias no entorno do Complexo de Suape". Expondo ilegalidades e arbitrariedades sofridas pela população neste território. Nesta audiência ficou entendido que esse tipo de “confisco“ de material, que presenciei, além de ilegal podia ser tipificado como roubo, pois não seguia os ritos jurídicos necessários para esse tipo de procedimento. Um dos vídeo que produzimos durante a pesquisa foi um relato de Seu Biu, o último morador resistente da ilha de Tatuoca. Nesse vídeo, Biu denúncia como a Milícia de Suape junto com a Polícia Militar derrubaram sua residência. Meses depois recebemos uma intimação para prestar esclarecimento em uma delegacia sobre o vídeo. A empresa Suape entrou com uma queixa de calúnia pelo uso do termo “Milícia” na descrição do vídeo. Uma tentativa clara de tentar nos calar.


Cineastas pernambucanos, como Kleber Mendonça Filho, falam sobre a especulação imobiliária em Pernambuco. Essa é uma realidade no seu estado? Pode citar algum exemplo?
Vejo como uma realidade brasileira comum nos centros urbanos, para além de Pernambuco. Aqui temos o exemplo recente com a construção da Arena para copa junto com a ideia de se construir a “cidade da copa”.

Por que o filme se chama Nanã?
Nanã é um orixá ancestral, um dos mais antigos. É representado como a avó, a grande mãe. A memória de um povo. Rainha da lama da qual surgiu todo o ser humano. E a analogia estão nesses pontos, em um território de mangue que nasce e morre todos os dias. Uma consciência de luta e transformação constante.


Você acredita que o cinema - ou a arte no geral - tem força para provocar reflexões acerca de situações da vida real? Seu filme pretende fazer o público pensar também?
Vejo várias formas de se pensar e fazer filmes. Todos eles são uma ação política, que pode ser guiado por uma postura de enfrentamento/posicionamento sobre um tema ou, pela escolha de não se falar sobre um tema. O cinema é mais um espaço de disputa da informação. Um debate muito claro hoje no Brasil quando se entende o poder que um grupo de famílias ainda detém como um monopólio da comunicação. Ainda de forma muito limitada, o cinema faz parte dessa disputa para provocar reflexões para o público. Limitada pela “bolha” burguesa de quem faz cinema e quem assiste cinema. A minha intensão com o Nanã, foi fazer um filme denúncia. Uma narrativa que usa a ferramentas do cinema para apresentar ao público uma realidade do território de Suape. Uma realidade que não é exclusiva de Suape. Ao contrário é uma lógica comum de “ Desenvolvimento” em locais que recebem grandes investimentos. Uma lógica perversa que atente aos interesses financeiros do “mercado” em detrimentos do povo.


Como foi filmar em Suape? Qual foi o maior desafio da produção?
Existia um receio com possibilidade da Milícia interferir de alguma forma negativa no processo, mas não existiu nenhum problema com isso. Traçamos uma estratégia de comunicação para conseguir filmar dentro o porto que foi alcançada com êxito. O maior desafio foram as filmagens dentro do mangue e o deslocamento de equipe e equipamento de barco para chegar às ilhas. Com o “detalhe” que escolhemos filmar em um período de chuva. Uma escolha que deu muita dor de cabeça para a produção, mas que possibilitou sequências únicas.

*Por Michel Toronaga - micheltoronaga@cine61.com.br

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