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Documentário Aracati mostra o vento como cultura de uma região

O documentário Aracati, das diretoras Aline Portugal e Julia De Simone, integra a Mostra Competitiva da 20ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), na Cidade de Goiás, em Goiás. O Cine61 - Cinema Fora do Comum conversou com a cineasta Aline, que falou sobre seu mais recente trabalho. O filme, produzido por seis anos, segue a rota do vento Aracati e aborda sua relação simbólica e invisível com os moradores da região do Vale do Jaguaribe, no Ceará.

O FICA é um festival voltado para questões ambientais. No filme Aracati existe algum tipo de reflexão sobre o meio ambiente? Como a importância do vento para gerar uma energia limpa, por exemplo.
Através da trajetória do vento Aracati, o filme pensa as transformações da região do Vale do Jaguaribe, no interior do Ceará. Foi uma região que nas últimas décadas passou por muitas modificações com a instalação de parques eólicos e também com a construção do açude do Castanhão, que removeu uma cidade inteira para a construção da represa. O documentário reflete sobre o meio ambiente a partir do impacto que as tecnologias, como aquelas de produção de energia e uso da água, têm sobre a paisagem e sobre os modos de vida locais.


Além da relação do vento e meio ambiente, como as diretoras conseguiram mostrar em cena a relação do vento com o ser humano? E todo o imaginário que o Aracati tem na vida das pessoas?
Esse vento é totalmente parte da cultura da região. Yodo mundo que encontramos pelo caminho sabe o que é o vento Aracati e muitas são as histórias relacionadas a ele. No filme, temos três personagens que possuem uma relação direta com ele. Um deles é profeta da chuva, que faz suas previsões meteorológicas através da observação da natureza, e um dos elementos que utiliza é o vento: a depender da época do ano em que ele começa, é sinal de chuva ou seca no próximo inverno. Outro personagem explica como o vento se forma, qual é o seu percurso, e comenta que ele varre as tristezas dos cearenses. Um terceiro personagem, que tem uma aparição mais performática, assobia para chamar o vento, como na música de Dorival Caymmi: "Vamos chamar o vento..."


Como algo invisível como o vento pode estar presente de uma forma tão forte na vida das pessoas? Que inclusive esperam a passada do vento Aracati todos os dias? 
O que nos interessa no invisível do vento é que para que seja possível vê-lo ou ouvi-lo é preciso que ele esteja sempre em relação. Seja a relação que estabelece com as massas de ar, ou com alguma superfície, esvoaçando cabelos, balançando as folhas das árvores, batendo portas e janelas. Para algumas pessoas da região essa relação é tão forte que elas costumam dizer que o vento tem personalidade, cada dia chega de um jeito: um dia está bravo, outro chega de mansinho, ou pode vir de forma travessa, levantando as telhas, por exemplo. Por ser um vento que adentra mais de 400 km pelo interior do estado, ele chega a lugares muito áridos e quentes, então a passagem do Aracati refresca, ameniza o clima. Esperar pelo vento com as cadeiras nas calçadas é também uma forma de estar junto, de conversar com os vizinhos enquanto se refresca ao final de um dia quente.


O filme foi produzido durante seis anos. Quais foram os desafios?
Os desafios foram muitos, tanto para a conceber o filme como para viabilizar a sua produção. Nesse período fomos até a região fazer pesquisa e lá rodamos um curta que lançamos em 2011 chamado Estudo Para o Vento, que foi uma primeira investida para entender de que maneira poderíamos filmar esse vento. A partir daí a nossa relação com o Ceará só se estreitou em diversos níveis, tanto que o filme é uma coprodução com a produtora cearense Alumbramento. Enquanto buscávamos financiamento, fomos mergulhando mais e mais nesse universo, e entendendo que ele estava passando por muitas transformações em diversos níveis, e que o filme precisava incorporá-las. E assim foi mudando também o nosso olhar para a região e redefinindo o recorte do filme.

E quais são os próximos desafios das diretoras?
Temos vários projetos em diferentes estágios, na Mirada e em parceria com outras produtoras. Nesse momento estamos escrevendo juntas o roteiro do filme Corte Real, um longa-metragem de ficção em coprodução com a Anavilhana, que vai ser dirigido pela Julia e filmado em meados do próximo ano. 

*Por Vinícius Remer da Silva - Especial para o Cine61 - contato@cine61.com.br

O jornalista viajou a convite da produção do FICA

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