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Luiz Bolognesi: plataformas digitais e o olhar antropológico

O diretor Luiz Bolognesi esteve presente na Mostra de Abertura do Fica 2018 com seu mais recente trabalho, o documentário Ex-Pajé. O Cine61 - Cinema Fora do Comum acompanhou o minicurso “Roteiros Para Novas Plataformas Digitais” ministrado pelo cineasta na manhã da última quarta-feira (6), na UEG - Unidade Universitária Cora Coralina, e aproveitou a oportunidade para fazer perguntas para o roteirista de Bingo - O Rei das Manhãs, Como Nossos Pais, Elis, As Melhores Coisas do Mundo, Bicho de Sete Cabeças, entre outros trabalhos.

Fotos: Sérgio Almeida
Luiz revelou durante o minicurso que trabalha muito como roteirista para outros diretores e atualmente está escrevendo um filme sobre o Ayrton Senna. O diretor afirmou que as novas plataformas digitais estão colocando o Brasil num novo patamar. “A gente está vivendo no audiovisual o oposto do que o Brasil está vivendo com a crise. (O país) se tornou bom e barato, por isso os executivos estão no Brasil querendo fazer série”. Mesmo com o investimento e o interesse estrangeiro, para o cineasta, “falta formação de profissionais do setor”.


O roteirista também afirmou que as plataformas digitais estão colocando a audiência em contato com uma qualidade bem superior aos formatos da novela, por exemplo. O Brasil é hoje o segundo maior assinante da Netflix no mundo. “As novas plataformas tiveram que ganhar a audiência americana - saturada com os formatos - e investir na qualidade. A característica não é repetir clichês e sim criar novas formas narrativas, (a série) Game of Thrones é de uma originalidade absurda. O mercado está interessado na ruptura (dos formatos).

Ao final do minicurso, Luiz Bolognesi abriu para as perguntas e o Cine61 - Cinema Fora do Comum não perdeu a oportunidade.

Ex-Pajé
Você é antropólogo e no filme Ex-Pajé tem muito do seu olhar enquanto antropólogo, esse olhar de observação. O que esse olhar reflete na construção dos seus roteiros? E uma curiosidade sobre o filme: dentro da igreja que o índio frequentava tinha esse homem branco, que quando a câmera está nele, ele parece muito bravo, com muita raiva. Não sei se ele estava assim realmente. Isso aconteceu mesmo de ele estar com raiva por ser filmado?
Vou responder de trás para frente. Ele é o pastor daquela igreja. Ele não é ator. As cenas da igreja são filmadas como um documentário. Pedi para filmar o culto dele e ele perguntou o porquê de filmar o culto. Falei que os índios dizem que é importante e eu estou filmando a vida dos índios. Filmamos o culto dele tentando com a câmera entender o que é importante. O que mais me chamou atenção é que o Perpera (o pajé) se tornou o zelador da igreja evangélica e estava super humilhado naquela situação. Ele abre a igreja, varre a igreja, fecha a igreja. Aquilo tudo massacra. Eu notei que ele ficava na porta como zelador, mas de costas para o pastor, conectado com a mata, isso é o centro do filme. Tanto que essa cena vem várias vezes. Quando vi isso acontecendo pensei “a gente tem que filmar essa atitude do cara”. Ele não ouve o pastor, ele fica viajando nos insetos, nos mosquitos, na formiga, pelo som ele liga narrativas. Filmamos os atos mais impressionantes do pastor, ele era um homem velho. Ele é um cara europeu. Não o vejo como bravo, mas tem uma certa arrogância. Uma certa coisa de “eu sei que vocês índios têm que aprender”. Isso incomoda a gente, essa atitude dele meio arrogante. A antropologia é uma ferramenta muito importante para mim dentro da dramaturgia. A ferramenta da antropologia é que quando você vai estudar uma cultura, você não pode apresentar os seus valores naquela sociedade. Esquece os teus valores e vai entender que sentido isso faz na cultura deles. Qual a lógica de pensamento que faz com que eles sejam assim. Estudar o outro tentando entender a mecânica e a lógica do outro, não impondo a sua lógica para o outro. É isso que eu faço nos meus roteiros. Quando faço um filme sobre bailes da terceira idade, não chego lá projetando o que eu acho, procuro fazer uma pesquisa antropológica do que eles acham, do que significa namorar para eles, o que é dançar para eles, disso eu faço a minha matéria-prima.

*Por Vinícius Remer Silva - Especial para o Cine61 - contato@cine61.com.br

O jornalista viajou a convite da produção do festival

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