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Zé Dumont fala sobre saudosismo militar no filme Tungstênio

O ator José Dumont está de volta aos cinemas na pele de Seu Ney, personagem icônico da HQ Tungstênio, de Marcello Quintanilha, que chegará às telonas no dia 21 de junho, numa adaptação assinada pelo cineasta Heitor Dhalia. Ex-sargento saudosista, preso nas memórias do passado num quartel, parte dele a indignação e a cobrança sobre o que fazer contra a pesca ilegal por meio de bombas, nos arredores do Forte de Monte Serrat, em Salvador. Leia a seguir uma entrevista com o ator.

Como se deu o convite para encarar o papel de Seu Ney no filme?
O convite veio do Heitor. O personagem é muito bom e eu gostei muito de fazer.

Você já conhecia a HQ de Marcello Quintanilha?
O filme fez com que eu comprasse o quadrinho. Achei maravilhoso. Já conhecia o Marcello por nome, ele é muito reconhecido no mundo todo. Já sabia também da premiação da França. O camarada é top. Ganhou como melhor do mundo. Fazer parte dessa adaptação foi uma grande responsabilidade, mas um desafio bom. É difícil adaptar uma HQ, mas foi possível com o talento do Heitor.

Zé Dumont no filme Tungstênio

O que te chamou mais atenção no personagem e no roteiro? 
O ritmo, a intensidade e a forma tornam a história eletrizante. Assim como o quadrinho. Tungstênio é o universo do caos, pesado e tenso, como o próprio material. Acho bonito (no filme) o entrelaçamento das diferentes histórias. Uma corrente humana. Personagens alimentados de emoção e sentimento. Um filme de ação, mas com ação bem construída. O Ney faz parte de todo esse caos. É muito doido. Chama atenção por não ser um filme de heróis ou anti-heróis. Todos os personagens estão na vida e seus destinos se cruzam, como acontece na rota da existência. Até a herança militar dele (Ney) é interessante: aparecem os valores da força, pensa ser capaz de controlar o mundo e as coisas. E o Ney não tem os valores que eu tenho, o que torna interessante fazer isso.

Como você define o personagem Seu Ney?
O Ney é um personagem careta nos valores, quadrado, por vezes ambíguo, e faz parte da ação permanente do filme. Ele se coloca como modelo de educação, tem a justiça como herança, é saudosista militar e isso remete a um tempo de dureza. É diferente de mim. Sou uma pessoa calma, não bonzinho, mas boa pessoa.

Zé Dumont no filme Tungstênio

Como você se preparou para interpretar o personagem? Quais foram os principais desafios?
Houveram ensaios de uma a duas horas caçando laços de espiritualidade e amor. Éramos alimentados por traços da Bahia que não se explicam, preparando o corpo e a dança, numa Salvador espiritual e intensa. Houve também a excelente preparação do Chico Accioly, um cara maravilhoso, e a assistência da Paranoid ajudou muito, nunca faltava nada. Foi desafiador traduzir o mundo caótico criado por Quintanilha, mas dava prazer em fazer.

Como foi a relação com Heitor Dhalia no set?
O Heitor é um talento incrível. Educado, mas firme. Sabia conduzir, sabia o que queria. Maravilhoso e muito gente boa. Ama os personagens assim como ama os quadrinhos. E, além de tudo, deu liberdade para a gente criar. Foi um prazer filmar, com concentração, claro, mas de maneira saborosa. Foi um trabalho que valeu a pena.

Tungstênio revela o ator Wesley Guimarães ao grande público. Como você pôde contribuir com esse jovem ator na obra?
Estávamos todos muito empenhados em fazer as coisas da melhor forma possível, chegar a força que o quadrinho tem. O Wesley já tem experiência, havia participado de outras produções, é grande como músico, parte da orquestra sinfônica. Tanto ele, quanto a Samira vão estourar. Acho interessante, porque a Samira é bonita além da câmera, mas não busca a câmera para registrar a beleza e, sim, a verdade, porque tem que ser verdadeiro para convencer as pessoas. Transcende o real.

Para você, Seu Ney é a representação do conservadorismo presente em nossa sociedade atual?
O Ney é de fato extremamente conservador, apesar de ao mesmo tempo ser humano. Tenta se impor com sua visão de vida.

Zé Dumont no filme Tungstênio

Como um saudosista militar, ele acredita que os valores da instituição são os mesmos de quando era sargento. Para você, se Ney fosse um cidadão real, ele estaria defendendo a intervenção militar no Rio de Janeiro hoje? 
O Ney, na vida real, seria uma pessoa desse “naipe’’. Não tem nada a ver comigo. Ele é defensor do universo conservador, um sargento que se comporta como general, essa é a loucura dele. Preso num campo de crença pessoal em que ele acredita naquilo. Faz parte desse universo caótico, que contempla o Brasil, de intolerância “braba’’. Todos estão na ordem conservadora das coisas. O filme mostra que estamos num universo caótico, e isso não acontece só no Rio, mas em qualquer cidade brasileira. Tungstênio não vai falar sobre isso (intervenção), mas está lá e tem que estar, aparece na alma de cada personagem. O velho sempre vai achar que o seu passado é o correto, mas a verdade é que não é uma coisa nem outra. O Richard, por exemplo, ao meu ver é o Ney novo. É a escritura da memória brasileira de hoje que faz parte de uma grande redação.

Os personagens são intensos e compartilham a violência (seja física ou verbal) como reação às suas fraquezas, gerando uma explosão de caos e sentimentos. Visivelmente, são personagens contemporâneos. Como você enxerga a relação Tungstênio x sociedade atual?
Os personagens são de fato interessantes. O filme é dotado de imensa brasilidade, mas o mesmo tempo a universalidade dele é enorme também. Há uma forte crítica ao Brasil contemporâneo, mas não se distancia dos personagens para se fazer isso, já que eles apenas são e agem de acordo com a dimensão que podem ter. Vivem num ato de dificuldade. E nos personagens é possível sentir a intensidade que está nas pessoas de hoje. Fazemos parte de uma cultura de morte e opressão que nos invade e, nesse momento, a arte é necessária ao ser equilíbrio, despertando no coração das pessoas algo bom, mesmo que esse algo seja a reflexão. A arte permite construir e ser desconstruído.

Zé Dumont no filme Tungstênio

Tungstênio aposta na força de um retrato social da Bahia que se reflete por todo o País. Cada história contada tem como personagem uma figura que vive às margens da sociedade e é tratada com descaso na vida real. Pensando no cenário atual do Brasil, como você acha que as pessoas reagirão ao assistirem ao longa? Qual sua expectativa?
Salvador é por si uma cidade eletrizante. Dava para sentir tudo ao redor muito intenso, ainda quando o filme estava sendo gravado. Há uma magia na Bahia que não se explica. Faz parte do charme do estado a constante efervescência do amor e da briga. Brigam no barzinho, no show da Claudia Leite, missa e candomblé, mas cinco minutos depois estão aos abraços e carinhos outra vez. Sem contar que o estado da Bahia é cheio de suingue. Não dá para esquecer que estamos falando de um dos grandes centros de cultura africana do Brasil, é nítido o grande gosto pela arte que vem de lá. Cada espectador se identificará de uma maneira com o filme. Estamos falando de um bom filme para o ato de assistir, mas não apenas. A ação é interessante, sem ser boba. E cada personagem é capaz de gerar identificação com o público, pois são complexos e interessantes.

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